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História de um diabético e sugestões

foto de sandro henrique

Conheça aqui a breve história de um diabético, que do quase coma passou a viver com a glicose plenamente controlada.

Pode uma pessoa com cetoacidose diabética, um estado no qual o paciente está com o nível glicêmico tão alto que pode chegar ao coma ou à morte, passar a conviver com médias de 105 mg e A1C de 5.1 apenas 1 ano e meio após o acidente. Bem, eu passei por isso e como espero que outras pessoas não cheguem a tanto, deixo aqui o meu depoimento e os 3 passos que eu segui para chegar à normalidade e a um estado de saúde bastante saudável.

Os Fatos

Quando alguém recebe um diagnóstico de diabetes, usualmente sua reação se enquadra em três comportamentos comuns: a negação, a ultra medicação e o enfrentamento consciente.

A negação faz com que o paciente continue a manter o seu estilo de vida pré diagnóstico, consumindo uma dieta não saudável, alheio à atividade física, e especialmente não acompanhando adequadamente seus níveis de glicemia e as potenciais complicações provocadas pela hiperglicemia crônica (glicemia alta constante). Usualmente este quadro terminará em alguma complicação grave: perda de visão, problemas cardíacos graves (a causa de óbito mais comum entre diabéticos), dores crônicas (neuropatia diabética), doenças renais etc. Nesse quadro, muitos casos terminam em amputações, necessidade de hemodiálise ou transplantes. Caso você queira conhecer o desfecho de alguns casos como esse, que podem servir como motivadores para uma mudança, sugerimos assistir ao documentário Glicemia em Alta, clicando aqui.

A segunda reação, bem comum, é o “tratamento dos sintomas”. O paciente toma algumas medidas paliativas, faz um regime não muito rigoroso, e tenta controlar a diabetes sendo super medicado. Grandes oscilações de glicose no sangue, “exageros” dietéticos, acompanhamento precário da doença, entre outros aspectos, caracterizam este processo. Em geral, o quadro vai piorando lenta e gradualmente, e se passa a consumir maiores doses ou medicamentos mais potentes à medida que o tempo passa para baixar a glicemia. Sendo que a causa da glicemia alta está na doença e na alimentação não controlada.

A terceira reação, que normalmente somente acontece algum tempo após, envolve “enfrentar” o problema “de frente”. O entendimento de que uma efetiva mudança de comportamento e de estilo de vida trará melhor qualidade de vida e de saúde em geral fará com quê o bem-estar, a redução dos medicamentos e a perspectiva de uma vida melhor sejam grandes motivadores de um tratamento mais positivo e adequado.

Porém controlar a diabetes não é exatamente um processo simples para a grande maioria das pessoas. É um processo multidisciplinar, que envolve várias especialidades, como a nutrição, a endocrinologia, a psicologia, a educação física etc.

Para um diabético médio, este processo pode ser confuso e chega ao ponto de uma sobrecarga de demandas, orientações e informações.

A nutrição é o principal fator de controle da diabetes. O açúcar elevado no sangue vem de algo que comemos hoje ou há algum tempo (proveniente de glicose armazenada no fígado, nos músculos ou de gorduras “cultivadas” por anos). Grosso modo, se nos alimentarmos da forma correta e eliminarmos os excessos de glicose armazenados em diferentes formas, nossa glicemia em algum tempo poderá estar em patamares aceitáveis, ou até normais, demandando bem menos ou nenhum medicamento, dependendo do estágio e do tipo de diabetes.

O que nos leva à primeira disciplina: a psicologia. Nossa mente dá uma enorme importância à alimentação, afinal ela é a base para a nossa sobrevivência. Muita dessa “atenção” pode até se transformar em compulsões (por doces, alimentos processados, pães etc.), e manter uma dieta rigorosa, especialmente por um longo período, requer um esforço grande para a maioria das pessoas.

Na medicina, as diretrizes do tratamento da diabetes recomendam como medidas iniciais, dieta e exercícios. Porém, dificilmente você será “forçado” a segui-las à risca por um profissional da saúde. Seu corpo, sua regras. Mas se os seus indicadores de glicemia não forem compatíveis com um quadro controlado, você receberá medicamentos ou, se já os toma, potencialmente ainda mais medicamentos, podendo chegar a doses “pesadas” de insulina, em casos agudos.

Medicamentos salvam ou melhoram a qualidade de vida de muitas pessoas. O ponto é que os hipoglicemiantes (medicamentos para redução do açúcar no sangue), atacam os sintomas, e não as causas, e são de uso contínuo, ou seja, terão que ser usados para sempre. Mas se a glicemia está alta, ou se ingeriu algum alimento não indicado ou comida em excesso. Esta é a provável causa, ainda que haja outros fatores que aumentam a glicose no sangue, como estresse, doenças, dormir inadequadamente etc.

Medicamentos tendem a ter sua ação diminuída com o tempo, o que normalmente levará a doses maiores, ou a medicamentos mais potentes para obter o controle do açúcar no sangue. E há ainda potenciais efeitos colaterais de alguns deles. Se você tem 40,50,60 anos, por exemplo, imagine-se qual será o quadro, daqui a 20, 30 anos.

Fui diagnosticado com diabetes tipo 2 (que na verdade é do tipo MODY, uma diabetes hereditária incomum) na casa dos 50 anos e da pior forma. No início de 2010, comecei a sentir lentamente alguns sintomas: tonturas, excessiva, sonolência, extremo cansaço após qualquer esforço, sede constante, episódios de impotência e outros. Lentamente os sintomas foram se agravando e as tonturas se transformaram em desmaios, a sonolência em 14 horas por dia dormindo nos finais de semana, sintomas de depressão apareceram, e o quadro foi se agravando.

Num estágio de negação, atribui os sintomas a algo passageiro e imaginei que em algum tempo estaria recuperado. Mas, obviamente, eles se agravaram: pele ressequida, micção a cada 15 minutos, consumo de 8 litros de líquidos por dia, de sucos, refrigerantes ou o que estivesse à mão. Até o dia em que eu não consegui andar 100 metros sem ter de parar para recuperar o fôlego e após uma náusea tremenda, vomitei e desmaiei no meio da rua.  Levado à UTI, passei 4 dias sem comer, com o medidor de glicose marcando HIGH (tão alta que o glicosímetro não tinha um número para ela, ou seja mais de 800) o tempo todo, e conectado a uma bomba de insulina, num quadro conhecido como cetoacidose diabética.

Após alguns dias, com uma glicose “mais estável”, em torno de 400, fui para casa, ainda em negação, e retornei à minha alimentação “tradicional”. Como exemplo, o “chazinho da noite” era acompanhado de um pacote completo de biscoitos, obviamente sem açúcar porque afinal eu “estava me cuidando”. Exames semanais de hemoglobina glicada em torno de 12%,11%, 10,5%, marcaram aqueles dias. Mas ao menos eu visita o médico semanalmente e frente ao quadro geral, a cada consulta, eu saía com a prescrição de mais medicamentos ou aumentos da dose de insulina.

Após alguns meses, percebendo o “peso” do custo dos medicamentos ao bolso e a minha saúde futura, tomei uma decisão importante: preciso entender a diabetes, pois meu conhecimento era básico e rasteiro, e simplesmente diminuir exclusivamente o açúcar no sangue ultra medicado não iria terminar bem. Inspirei-me na frase de Sun Tzu: “Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas, porque ganhará a guerra. Se você se conhece, mas não conhece o inimigo, para cada vitória ganha sofrerá também uma derrota.”

Hoje, 10 anos depois, em uma longa caminhada, com muitos erros e acertos, a guerra continua, mas com uma hemoglobina glicada de 5,3%, uma capacidade física de quase maratonista, e um acompanhamento glicêmico periódico e rigoroso, sinto-me transformado na figura do general chinês Tzu: “conhecendo mais ao inimigo e perdendo menos batalhas”. 

Depois de mais de vinte cursos sobre diabetes, sendo alguns de especialização, desde a Universidade de Copenhagen (Dinamarca) até a Johns Hopkins (Estados Unidos), uni-me ao grupo do Controle da Diabetes Brasil (de diabéticos para diabéticos, com ciência), para disseminar o conhecimento e as melhores experiências práticas para o controle da glicemia.

O primeiro passo para uma mudança é a informação ou simplesmente “conhecer o inimigo”. A ciência nos ensina as causas e as reações que temos causadas pela hiperglicemia crônica.  Demonstra como a doença funciona, e como podemos evitar as complicações. E a informação, além de esclarecedora, pode ser um forte argumento de convencimento e motivação, pois o entendimento nos mostra onde e como devemos intervir.

Neste site, compilamos as principais informações sobre a diabetes de vários tipos (1, 2 e gestacional), e especialmente as recomendações mais importantes para o controle da glicemia. Este é o primeiro passo.

O segundo passo é o foco na alimentação. Ela obviamente tem de ser “saudável”.  Nosso organismo levou muitos milhares de anos evoluindo e adaptando-se a uma dieta mais natural e mais restrita, ou seja, sem alimentos ultraprocessados. Porém nos últimos 100 anos a dieta humana mudou radicalmente, transformando-se em uma altíssima concentração de alimentos à base de carboidratos simples (açúcares), gorduras, produtos artificiais, que deixam nossos cérebros “felizes” e satisfeitos, e que são encontrados com extrema facilidade. Nenhuma espécie animal tem disponibilidade irrestrita de calorias, o que é completamente inusitado na história da evolução.

Porém, essa satisfação momentânea que sentimos é oriunda dos tempos em que raramente o homem encontrava um alimento rico em carboidratos simples, tempos nos quais o homem coletava raízes repletas de fibras e pobres em carboidratos e raramente encontrava abundância de gorduras.  O resultado tem se apresentado sob a forma da diabetes epidêmica (mais de 400 milhões de pessoas mundo afora), hipertensão, colesterol, obesidade e tantas outras disfunções metabólicas, de corpos não preparados para a qualidade de alimentos que consumimos. Simplesmente, nosso corpo não está preparado para esta “dieta feliz”.

Para ajudar a compreender as dietas recomendadas para diabéticos, as suas diferenças, a melhor forma de segui-las, recomendamos uma visita a nosso site, na seção Produtos Recomendados, onde você encontrará mais material gratuito e algum material pago, mas acessível, que detalha o assunto. Há aqui um conceito mais amplo a ser observado: saber que não se deve consumir pães ou macarrão ou batatas parece simples. Mas, na prática, há muitas dúvidas bem comuns, como por exemplo: não devo consumir todas as variedades de batatas? Posso consumir alguma? Qual a variedade de batata mais indicada? E se eu consumir uma variedade específica, qual o tamanho de porção indicada? Qual o tipo de acompanhamento mais indicado, caso eu consuma batatas? Enfim, a lista de dúvidas pode ser grande, e uma dieta correta requer que você conheça as características dos alimentos que quer consumir ou já consome a fim de evitar os picos de glicemia. Então visite nosso site (clique aqui), e siga o segundo passo para realmente controlar a sua glicemia: entenda a melhor forma de alimentação para a sua condição.

O terceiro passo, após informar-se sobre as características da diabetes e as diretrizes dietéticas, é ter um cardápio saudável, mas também saboroso. Quantas pessoas conseguem comer legumes no vapor e sem sal dia após dia? A mesma salada dia e noite? E como fazer isso, sem deixar a “carteira” no mercado? Então receitas variadas e adequadas são muito importantes para manter uma dieta sem “sofrimento”. Dieta não deve ser sinônimo de comida ruim ou sem sabor. E para diversificar a alimentação recomendamos novamente uma visita ao nosso site, e verificar em nossos artigos receitas indicadas para diabéticos, assim como na seção de produtos recomendados, literatura gratuita e paga, com inúmeras receitas de pratos para diabéticos.

Bem, estes são os passos básicos: informação sobre a doença, para melhor acompanhar a sua condição, alimentação saudável, para controlar a evolução da doença, e um cardápio saboroso e adequado ao seu paladar para manter a dieta adequada. Dessa forma é possível controlar bem a diabetes no longo prazo, e ter uma vida normal e prazerosa.

Quando me perguntam por que eu tomo todos os cuidados que posso no tratamento da diabetes, respondo que tenho uma meta: “quero estar na formatura de minha neta (que nem nasceu ainda). E além disso quero poder dançar com ela muitas vezes”. E você onde quer estar daqui a 20 anos?

Obrigado. E espero que possamos ajudar a todos os que aqui vierem buscar informações para sua saúde.

Grupo Controle da Diabetes Brasil e Henrique Nunes